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15.10.2007 | Acapulco Magazine


Esporte

O canhão da Vila: José Macia (Pepe)

Pelé e Pepe
Pelé e Pepe
Texto Roberto Aló Filho

A palavra Pepe no “dicionário futebolístico” é sinônimo de Santos Futebol Clube. Foi um excepcional jogador de futebol e é idolatrado até hoje pela torcida alvinegra. O “Menino de Ouro” tinha um potente chute de canhota que amedrontava os adversários.

Por este motivo era chamado de “O Canhão da Vila”. Disparava verdadeiras bólides com seu canhão instalado na perna esquerda. Em cobranças de falta nocauteava de propósito os sem sorte armados na barreira, para que numa próxima cobrança os componentes tornassem-na transponível.
Tinha raça e velocidade. Dedicou-se de corpo e alma à camisa santista. Jogou somente no Santos. Fez 759 jogos e marcou 405 gols. Formou juntamente com outros craques fantásticos o “Time dos Sonhos” do futebol brasileiro das décadas de 50 e 60.

Pela seleção brasileira foram 22 gols em 40 jogos, porém teve a frustração de não jogar nenhuma partida de Copa do Mundo. Era o titular absoluto da ponta esquerda, mas machucou-se antes do início das duas copas que participaria, ficou na reserva e não pôde jogar.

Livro do Pepe
Livro do Pepe
O Santos montou grandes times e dominou o futebol paulista entre 1955 e 1969. Se não fossem os títulos do São Paulo (1957) e do Palmeiras (1959/63/66) o alvinegro praiano seria 15 anos consecutivos campeão paulista. O time tinha excelentes jogadores de defesa e meio campo, mas foi o ataque que deixou marcas na memória dos torcedores. A formação de ataque: Dorval, Jair, Pagão, Pelé e Pepe, era a preferida do Canhão, pois tinha em Pagão um jogador que facilitava muito seu futebol. “Nós nos comunicávamos só pelo olhar”, afirma Macia. Outro ataque, mais famoso e ganhador de mais títulos, foi: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.

“Joguei com excelentes centroavantes todos grandes goleadores como Del Vecchio, Coutinho, Toninho Guerreiro, mas eles eram definidores. Com eles no ataque eu marcava 20 gols por campeonato, com o Pagão marcava 40”, compara Macia e ainda ressalta: “Ele saía muito da área, tinha habilidade e me deixava sempre na cara do gol”.

Jogando pelo Santos, Pepe conheceu inúmeros países. Em partidas amistosas jogou contra times fortes, como: Barcelona (ESP), Juventus (ITA) e Internazionale (ITA). Muitas vezes o time jogava partidas um dia após o outro e dormia em aeroportos esperando conexão para embarcar para outros países. Os hotéis próximos as estações ferroviárias, eram as hospedagens preferidas que eles utilizavam para que o time não perdesse o trem.

“Hoje alguns jogadores reclamam de jogar quarta e domingo, imagine se jogassem naquela época”, ironiza Pepe e acrescenta: “Cheguei a jogar com o tornozelo machucado em uma partida, no intervalo falei com o técnico Lula que não tinha condições de jogo. Recebi uma infiltração, meu pé esquerdo ficou anestesiado e ainda fiz um gol de falta no segundo tempo”.

Atualmente os jogadores reclamam de qualquer dor. “Hoje os jogadores têm conforto, viajam de ônibus, avião fretado, naquela época o Santos ia jogar, por exemplo, em Bauru e viajávamos divididos em cinco táxis”, recorda Pepe.
O Santos daquela época foi um time fantástico, dificilmente surgirá algo parecido. Quem viu, viu.

Pelé de outro mundo
Viu a chegada do menino Pelé à Vila Belmiro. Já nos primeiros treinos reconheceu no garoto um grande jogador. Não imaginava que seria o melhor do mundo.

“Não há adjetivos para defini-lo, quando ele jogava já tínhamos em mente que o jogo estava 1x0 para nós. Enquanto dormia, Pelé sonhava com a partida, mexia-se, fazia ginástica e gritava gol! No dia seguinte arrebentava no jogo”, comenta Pepe.

Raras eram as vezes que Pelé jogava mal. Mas Pepe recorda de um episódio quando o Santos vencia o Nacional (SP) por 2x0 na Vila Belmiro. A torcida estava acostumada a ver espetáculos e goleadas, com a vantagem de apenas dois gols, o time começou a tocar a bola e se acomodar com a provável vitória. Motivo que fez a torcida começar a vaiar, querendo que o “peixe” goleasse o adversário, mas a equipe vinha de muitos jogos e estava se poupando fisicamente. Pelé, em um rompante de fúria, pegou a bola e a chutou em direção à torcida.

Pepe ao lado do canhão
Pepe ao lado do canhão
Na opinião de Pepe, Pelé era completo. “O atleta do século chutava de direita, de esquerda, batia falta, cabeceava, tinha uma velocidade impressionante, jogou até no gol. Dizia-se que não teríamos outro Friedreich, outro Leônidas da Silva e apareceu o Pelé. Agora outro Pelé... Deus o criou e jogou a fórmula fora”.

Despedida e nova carreira
Pepe despediu-se do futebol em 1969 num jogo na Vila Belmiro contra o Palmeiras que o Santos perdeu por 1x0. O Canhão da Vila não jogou, mas foi homenageado pela torcida santista, deu volta olímpica junto com sua esposa Lélia em um clima de muita emoção. No mesmo ano foi convidado pelo então diretor e antigo companheiro Zito, para ser técnico dos juvenis do Santos Futebol Clube, iniciando sua também vitoriosa carreira de treinador.

Obteve vários títulos como técnico, os que mais lhe projetaram foram: o campeonato paulista de 1986 pela Inter de Limeira e o Brasileiro do mesmo ano pelo São Paulo.
Trabalhou em outros países como Portugal, Peru, Catar e Japão. Sua família o acompanhava. Em Portugal, trabalhou no Boavista Futebol Clube que tinha como presidente o Major Valentim Loureiro, figura que gerou histórias para escrever um livro. No Peru andava cercado de seguranças por causa do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso, mas sempre foi muito respeitado naquele país e nada aconteceu. “No Japão os problemas eram o frio e os terremotos e no Catar o calor intenso, mas são países maravilhosos”.

A coleção de títulos ganhos como jogador e somados às conquistas como treinador, conferem à José Macia o recorde mundial individual de 93 títulos no futebol.
Atualmente prefere trabalhar como coordenador técnico, mas não lhe faltaria coragem para assumir um grande clube desde que esteja muito bem assessorado.

Coutinho, Pelé e Pepe
Coutinho, Pelé e Pepe
O livro de Macia
Em 2006 Pepe lançou o livro “Pepe, Bombas de Alegria” (Realejo), onde relata histórias vivenciadas por ele, seus companheiros de Santos, jogadores que dirigiu, outros técnicos, dirigentes, enfim um leque de causos engraçados e enriquecedores da cultura futebolística dos últimos 50 anos. Para amantes do esporte, é um livro imperdível.
Várias histórias ficaram de fora desta edição. Provavelmente entrarão em um segundo livro com lançamento previsto para 2008: “Ele trará minha biografia e também mais histórias engraçadas”, salienta Pepe.
A seguir, algumas passagens da vida de Pepe, reveladas por ele durante a entrevista:
Carregado em triunfo. “Como técnico do Santos fui campeão do primeiro turno do campeonato paulista de 1980, título que garantia o alvinegro na final daquele ano. Festa em campo. Fui carregado nos ombros, os jogadores e a torcida comemoraram muito. Na conquista do paulista de 1986 pela Inter de Limeira ocorreu o mesmo fato, festa e carregado em triunfo nos ombros de um cidadão. O fato curioso é que este cidadão havia sido o mesmo que me carregou em 1980. Comentei isso com um dirigente da Federação Paulista de Futebol que me confidenciou: Pepe, a federação paga funcionários para carregarem os técnicos vencedores. E eu achando que tinha um fã que me acompanhava em todos os jogos”.
Dalmo marcou, Santos 1x0 Milan. “Todos perguntam por que Dalmo e não Pepe bateu o pênalti na final do mundial interclubes de 1963 contra o Milan no Maracanã. Aconteceu o seguinte: Pelé era o batedor oficial, não ia jogar e Pepe não cobrava uma penalidade máxima havia um ano. Na véspera, ele e Dalmo treinaram várias cobranças e o aproveitamento do lateral santista foi melhor do que o do Canhão. Quando o pênalti foi marcado, o técnico Lula pediu que Dalmo cobrasse, ele foi e converteu: Santos bicampeão mundial interclubes!”
Um jogaço, três mortes! “Um jogo de 13 gols. Em um clássico. Santos 7x6 Palmeiras. Estádio do Pacaembu dia 06/03/1958, uma quarta-feira à noite. No primeiro tempo o Santos abriu 5x2 no placar. Jogo ganho? Ledo engano. O Palmeiras voltou fulminante no segundo tempo e virou o placar para 6x5. No final do jogo Pepe marcou dois gols, aos 38 e 41 minutos, virando o placar para 7x6. Após a partida veio a notícia que três torcedores ouvindo o jogo pelo rádio faleceram de emoção. Naquele tempo havia emoção.”
Parada para um cafezinho. “O Santos não tinha ônibus naquela época. Os jogadores tinham o “luxo” de irem divididos em cinco táxis para os jogos. Certa vez em um jogo marcado para o estádio do Pacaembu em São Paulo a delegação parou na Vergueiro para tomar um cafezinho, os torcedores passavam e falavam: “Olha o time do Santos! Eles vão jogar no Pacaembu”. O curioso é que já era o grande time peixeiro, com Pelé, Pepe e cia. Não havia confusão, havia sim um respeito muito grande. Se fosse hoje...”
Major Valentim. “O presidente do Boavista de Portugal, major Valentim Loureiro, era um homem truculento, bruto que não tinha papas na língua. Aqui no Brasil seria como o presidente do Vasco (RJ), Eurico Miranda, só que pior. Houve um episódio com um funcionário da secretaria do clube que cometeu um erro em um trabalho. No dia seguinte o major o colocou para engraxar chuteiras. Outro dia gritou com o garçom do restaurante do clube porque ele quebrou um copo: “Você não tem vergonha?”, e o garçom: “está tudo bem, major”, o major retrucou: “Tudo bem uma ova! Você acaba de quebrar um copo do Boavista e me diz que tá tudo bem? Isso aqui não é meu nem teu, isso aqui é do Boavista!”, na certa no dia seguinte ele deve ter colocado o garçom para puxar uma carroça.”
Lixo lucrativo. “No Japão a tecnologia dos aparelhos eletrônicos é espantosa. Os japoneses têm o costume de jogar no lixo aparelhos com pequenos defeitos, mas que para consertá-los custariam quase o preço de um novo. Havia brasileiro que ficava percorrendo as casas japonesas garimpando esse “lixo lucrativo” bem diferente dos catadores de lixo tupiniquins.”

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