FOI GOLEIRO DO SANTOS NA ÉPOCA DE PELÉ E VIAJOU AO ORIENTE PARA ENSINAR FUTEBOL NA ARÁBIA
Texto de Rogério Amador
Um jogador que fez a história do futebol brasileiro no mundo
árabe, ao lado de outros grandes prof issionais, nos
anos de 1980 e 1990.
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Seu olhar modifica quando entramos no assunto. Percebe-se em sua expressão o zelo, a preocupação e a admiração pelo esporte em que já trabalha há 44 anos como jogador, preparador físico de goleiro e auxiliar técnico.
Nascido em Jundiaí, interior de São Paulo, esse filho de italianos é hoje um dos profissionais mais respeitados no mundo da bola. E não é à toa. Participou da lendária equipe da Ponte Preta de 1969 a 1971 que tinha Teodoro, Samuel, Araújo e Nelsinho Batista, Santos, Alan, Dicá, Manfrini, Roberto Pinto e Adilson. Contratado pelo Santos de Pelé em 1973, jogou com grandes craques como os goleiros Cerras e Cláudio, o último segundo ele, foi o maior arqueiro que viu jogar.
Em 1979, devido a uma contusão nas costas, pendurou as chuteiras. Mas não largou o futebol. Formado em Educação Física pela PUC, iniciou a carreira de preparador físico no próprio Santos. No clube foi quase tudo. Preparador de goleiros, gerente diretor de futebol e auxiliar técnico. Chegou a dirigir o time aspirante do Peixe. Treinou goleiros importantes da história do clube como Marola, Nilton, Sergio Guedes e Rodolfo Rodrigues. Depois, teve uma das maiores experiências da sua vida. Levado pelo ex-treinador Castillo, se tornou um dos pioneiros do esporte no Oriente Médio.
Trabalhou por 18 anos no futebol árabe como treinador de goleiros, auxiliar técnico e dirigente. Nesse período, atuou com os principais técnicos brasileiros como Ivo Wortmann, Cabralzinho, Vanderlei Luxemburgo e Carlos Alberto Parreira.
Na Arábia teve uma carreira vitoriosa, onde destacam-se sete títulos da Copa da Ásia de Futebol entre as equipes olímpica e principal.
Participou das Copas do Mundo de 1994 nos Estados Unidos e 1998 na França pela comissão técnica Saudita. Teve o gosto de levantar a taça da Copa do Golfo, título importantíssimo para os sauditas. Seu goleiro, Mohamed Al Daeyea, foi eleito o melhor do século 20 do continente asiático.
— Foi uma experiência incrível. Cresci na profissão, trabalhei com grandes treinadores e pude dar uma estrutura bacana para a minha família – disse Quiqueto, fã incondicional do ex-treinador Elba de Pádua Lima, o Tim, considerado por ele o melhor de todos.
De volta ao Brasil, Wilson foi auxiliar do técnico Geninho nos principais times do País como Vasco, Botafogo, Atlético Mineiro, Sport, Goiás e Corinthians.
Durante a carreira, foram várias situações inesquecíveis. Sem contar os fatos curiosos, como o dia em que o goleiro ganhou uma bicicleta como prêmio de melhor jogador, concedido por uma emissora de rádio, no jogo entre Ponte Preta e Vasco da Gama, pelo Campeonato Brasileiro de 1970, chamado de Taça de Prata. No dia em que foi buscar o presente, capotou com seu automóvel após um acidente. Resultado: apesar de nada ter sofrido, trocou um carro pela bicicleta.
Do menino humilde, que estudava desenho técnico no SENAI de Jundiaí, até o conceituado profissional de futebol, que já rodou o mundo com a profissão, muita coisa aconteceu. Alegrias e tristezas. Vitórias e derrotas. Valorização e desprezo. Sentimentos que fazem parte do ambiente futebolístico que certamente Wilson degustou.
Atualmente o precursor do futebol no Oriente Médio quer mais. Assumir como técnico de uma equipe é sua meta. Até porque se sente capaz de fazer um excelente trabalho a frente de um grande time. Experiência não lhe falta. Amor ao esporte muito menos. Afinal, Wilson Quiqueto respira futebol. Em casa, na cidade de Santos, a família também participa e juntos assistem a jogos pela TV, debate com os filhos Giuliano e Bruno acerca de táticas novas.
Comenta com a esposa, Dona Silvia, sua fiel companheira desde o início da carreira, sobre o mercado da bola, enfim, qualquer que seja o assunto, tudo leva ao esporte preferido. Quando perguntado sobre o que o futebol representa para si, é enfático: — Pra mim é tudo!!
CHOQUE CULTURAL
Quiqueto morava em Riad, capital do reino, onde se localizava a sede da Federação Saudita de Futebol. Seu condomínio, o Sahara Towers, composto por dez edifícios, era habitado por gente de todo mundo. Fez amizade com italianos, alemães, britânicos, e por sua experiência no País do petróleo servia como espécie de guia para os brasileiros que lá chegavam.
Nas horas vagas adorava jogar tênis com os filhos e colegas de profissão.
Gostava de passear com sua esposa pelos grandes centros de ouro e tapetes persas da cidade e também de conhecer os enormes palácios dos príncipes da região.
Treinava os goleiros de todas as categorias da seleção saudita. Quando existia uma competição, lá ia o Quiqueto acompanhar a delegação. Viajou por todos os continentes, conheceu inúmeros países, mas foi Dubai, nos Emirados Árabes, que mais o encantou.
No início, o choque cultural se tornou a maior dificuldade para sua família. Sua esposa, Silvia, além de não poder dirigir, tinha que usar uma roupa preta por cima do corpo, chamada de Baia, e por muitas vezes teve de cobrir seu cabelo com um lenço, pois os religiosos extremistas a obrigavam.
Outro hábito dos países islâmicos são as rezas. Cinco vezes ao dia as vozes dos muçulmanos são ouvidas por toda cidade por alto-falantes posicionados nas torres das mesquitas. Nesse momento, os árabes deixam suas atividades para se dedicarem a Alá, o Deus islâmico. As lojas se fecham, os treinos são interrompidos, o País pára.
O que mais causou estranhamento para seus familiares foi a vida social. Silvia não podia sair de casa sozinha e as dez horas da noite tudo se fechava. As ruas ficavam as escuras, somente o supermercado 24h ficava aberto. Esse foi um dos motivos que fez seus filhos voltarem a viver no Brasil. O único local de total liberdade era dentro do condomínio fechado em que morava.
VIDA DE JOGADOR
Um simples convite de um amigo, para acompanhar um jogo de futebol na cidade vizinha, Itatiba, no interior de São Paulo, veio a mudar a vida do jundiaiense. Chegando ao local, foi convidado para integrar a equipe no banco de reservas na posição de goleiro.
— Mas eu não sei jogar futebol – reclamou Wilson.
— Meu negócio é nas piscinas, nas quadras, não nesse lugar – continuou dizendo e fazendo uma alusão aos seus esportes preferidos: natação, basquete e voleibol.
Mas não teve jeito. Sentou no banco de reservas e ficou acompanhando o jogo, até que o goleiro titular acabou se machucando. Sorte ou azar?
E lá vai o garoto Wilson defender o gol do Itatiba Futebol Clube. Nesse momento, a equipe da casa já perdia por dois a zero.
E o inesperado aconteceu. O menino fechou o gol.
O time melhorou, e acabou vencendo a partida por três a dois.
A partir daí o destino bateu na porta da família Quiqueto. Surgia um dos grandes goleiros que o futebol brasileiro já viu.